Demônios do passado e do futuro
“‘Onde dois ou três se reúnem em Meu nome, lá estou entre eles’. Entre duzentos ou trezentos, a presença de Deus se torna mais problemática. E quando os npumeros atingem vários milhares, a probabilidade de Deus estar lá na consciência de cada indivíduo, declina até o ponto de se extinguir por completo” (Aldous Huxley, Os Demônios de Loudon)
Ler Huxley é sempre um redobrado prazer. Não concordo com tantas coisas que ele diz, mesmo assim a cada uma daquelas frases perfeitas, concisas e profundas tenho vontade de correr para o computador e escrever um texto só para colocá-la como epígrafe ou citá-la no texto. Só para citar um exemplo, contraponho a tantos livros e panfletos sobre os perigos da corrida armamentista uma simples frase dele: “Por enquanto estamos na primeira fase do que talvez seja a penúltima revolução. Sua fase seguinte pode ser a guerra atômica, caso em que não precisaremos nos preocupar com profecias sobre o futuro”.
Passo horas pensando nas afirmações dele. Fico pasmo no dia a dia quando vejo o quanto foi assustadoramente preciso nas previsões do Admirável Mundo Novo, escrito em 1932. O único erro foi no prazo necessário para sua implementação, que ele colocou 600 anos à frente. Infelizmente este mundo novo já chegou e se implanta com este efeito de bomba atômica sem o alívio de ao menos não precisarmos nos preocupar com as projeções para o futuro.
Mas é outra a qualidade de Huxley que gostaria de destacar hoje: sua sinceridade e coerência. Ao longo do tempo é perceptível a transformação do cético no transcendente, do cientista que olha com certo desprezo pela religião naquele homem que vê como única solução a transcendência e descobre a validade de todas as fés. A sua sinceridade está em ser convencido pela sua capacidade de ver o mundo e refletir, sua coerência está justamente em sempre escrever aquilo que crê. Não é à toa que o Selvagem do Admirável Mundo Novo de 32 é quase o morador típico da sua tentativa de pensar uma Utopia em A Ilha, escrito em 62, mas ao mesmo tempo os valores expressos entre estas duas datas são os mesmos.
Um de meus livros preferidos dele é “Os Demônios de Loudon”, escrito a partir de uma pesquisa documental sobre um julgamento de um padre acusado de feitiçaria por uma prioresa de uma ordem religiosa. Curioso que quase sempre vejo o livro citado como referência anti-religiosa, quando na verdade parece-me talvez um dos mais religiosos livros do autor, no qual ele mergulha com profundidade na espiritualidade cristã encontrando no mergulho aquilo que todo buscador sincero encontra quando se dedica a aprofundar-se numa fé: a Unidade essencial de todas elas.
O livro é sobretudo uma sobreposição de oposições. A principal me parece é entre o espiritual e o psíquico – e neste sentido arrisco-me a dizer que o livro é tão atual e necessário como o Admirável Mundo Novo. De um lado a verdadeira espiritualidade buscada na disciplina, no desejo de elevação e unidade, de outro a histeria psíquica iniciada por motivos baixos mas fúteis, mas capazes de despertar forças incapazes de serem controladas- “Nenhum homem pode concentrar sua atenção no mal, ou mesmo na idéia do mal, sem ser afetado. Ser contra o Diabo, mais do que a favor de Deus, é excessivamente perigoso” – libertando o “maníaco que habita dentro de nós”.
O que era inicialmente fraude – e talvez jamais em grande parte tenha deixado de ser, Huxley observa à luz dos documentos do processo e relatos que os demônios que possuiam as irmãs blasfemavam o tempo todo insultando a Deus, a Cristo, à Virgem, aos santos, mas só faziam elogios ao Cardeal Richelieu, patrocinador, por razões políticas, do processo, demonstrando que não eram diabos desprovidos de aguçado tato político. Ao mesmo tempo, contudo, o único daqueles que convivem com estes demônios exibicionistas nos shows de exorcismo que escapa ao final do ciclo todo é o único padre que é sincero na sua busca e, na descrição de Huxley, só comete o engano da ingenuidade, acreditando piamente em tudo.
Destes dois personagens, a prioresa endemoniada e o padre exorcista, Huxley extrai uma definição de comédia e tragédia. “A tragédia”, diz ele, “é algo de que se participa; a uma comédia apenas assistimos”. A prioresa vê em todo o episódio uma oportunidade de destacar-se e obter vantagens, o padre-exorcista fica por anos e anos vítima de seus próprios dramas, mas ao final é o único que recupera-se.
Não há, contudo, no autor nenhuma preocupação em julgar os personagens, mas sim em tentar compreendê-los. Mais do que um detalhado exame da documentação, Huxley faz todo um estudo sobre a mentalidade da época, da medicina à metafísica, passando pela literatura e pelo Direito. Entre as passagens da história há capitulos de discussão teórica – o que talvez explique proque é um livro pouco popular dele – em um esforço para que as grandes e pequenas vilezas dos personagens possam ser compreendidas pelo leitor, para que ele se coloque na situação dos algozes e conspiradores e, sobretudo, para que se reflita sobre a questão nos dias de hoje. Até acho que tanto didatismo seria desnecessário, mas antes de ser um romance histórico o livro é sobretudo um ensaio romantizado.
Caso curioso é o outro padre, aquele que é acusado de ter um pacto com o demônio e atacar o convento, protagonista da sessão inicial do livro – típico personagem de Huxley de homem orgulhoso e talentoso, consciente de sua superioridade e inconsciente dos perigos dela – Urban Grandier desaparece da história quando condenado, torturado e queimado na fogueira.
Condenado mais pelo pecado real de ter humilhado Richelieu em um momento no qual o grande personagem estava em desgraça na corte do que pela falta imaginária de ter lançado demônios contra o convento. Contudo fica a impressão de que de todos ele é o único que se salva, o único que consegue transcender de fato e enfrenta com altivez e indiferença os suplícios da condenação, penitência para seu orgulho, vaidade e luxúria que lhe trouxeram tantos inimigos.
