Liberdade e escravidão
Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre. (Fernando Pessoa)
Um dos emails que recebi de um amigo, comentando meu post – A verdade e seus Amigos – da sexta-feira, disse que me considerava o muçulmano mais budista que ele conhecia. Provavelmente se fosse budista destacaria no que escrevo alguns aspectos mais belicosos e mais voltados a destacar a necessidade de viver no mundo, por sua vez, e ele diria que era o budista mais muçulmano que conhecia…
Acredito profundamente naquela frase de um mestre sufi segundo a qual os caminhos para Deus são tantos quantos são os corações dos homens. Para quem tem a preocupação consigo próprio pode ser reconfortante a idéia de que fazer parte da religião x ou da Igreja y é uma garantia de salvação, um passaporte para o paraíso ou ao menos uma segurança de não ingressar no inferno.
Este tipo de visão só poderia servir para a utilidade oposta, não é à toa que meus amigos ateus ou agnósticos sempre invocam a multiplicidade de religiões condenando os membros de uma a outra ao eterno sofrimento como uma prova da falha de todas elas. Mesmo algumas daquelas que tem uma visão mais compassiva com as outras fés, como o budismo e o espiritismo, não deixam, por sua vez de transformar o que em outras fés é intolerância em um certo conceito de superioridade.
O que eles dizem nas entrelinhas, é que todas as fés são válidas, mas que os adeptos da sua são superiores, estão acima dos demais, são mais evoluídos ou coisa d tipo. Em outras palavras, a diferença na postura de intolerância é apenas quantitativa, não qualitativa, porque em essência é o mesmo sentimento de excluir em algum grau o outro, aquele que não compartilha de um caminho idêntico.
Uma outra interpretação desta questão da multiplicidade das religiões é acabar achando que tanto faz seguir um caminho ou outro, que as práticas e rituais estritos de cada fé são apenas um adorno externo, que cada pessoa tem a liberdade de seguir a Deus como achar que deve. Este raciocínio desmonta-se na prática, a despeito de toda a simpatia que se possa ter em relação a ele, porque tende a levar a pessoa a eliminar um passo essencial presente em qualquer religião porque essencial ao ser humano que é o desenvolvimento da disciplina, o controle dos desejos, a compaixão e o respeito ao próximo.
Como, perdoem-me por repetir isto pela milésima vez mas o faço porque é um conceito essencial, a maioria das pessoas estão mais preocupadas com seus direitos do que com seus deveres, esta postura de religião “self-service” acaba levando ao abandono de toda disciplina, a transformar a pessoa em escravo de seus desejos. Como são falsas tantas dualidades, também é falsa a que opte a liberdade e a disciplina, por isto as regras de cada caminho são necessárias não como leis a serem obedecidas em busca de uma recompensa, mas como sendas para a liberdade mais profunda.
Para mim a divisão evidente que há entre a massa e a elite é, justamente ao contrário do que é normalmente entendido, que a massa deseja os direitos, o usufruto, enquanto a verdadeira elite no sentido essencial e original do termo, compreende os deveres que tem em função do quinhão que receberam do Criador.
Àqueles que ignoram alguma objetividade ou realidade dos princípios morais e éticos, e este é um tema freqüente das minhas correspondências e conversas, eu sempre digo três coisas. A primeira e mais importante dela é que qualquer dúvida sobre se algo é certo ou errado não existe na verdade. Um simples princípio presente, muitas vezes com palavras muito próximas inclusive, nas diversas religiões, demonstra com clareza que a fronteira moral é bem real: “não faça aos outros que não gostaria que fizessem a você”. É impossível errar ou ter dúvidas seguindo esta regra que resume a ética das religiões mais diversas.
A segunda coisa é que devemos estar preocupados e centrados conosco, não nos demais. Na medida que buscamos lá no nosso âmago nossos defeitos não só nos aprimoramos e nos tornamos mais tolerantes com os defeitos dos outros, como através da correção daquele problema em nós nos transforma numa pequena luz de exemplo e permite que através deste exemplo ajudemos os outros a melhorar muito mais do que poderia ser obtido através da crítica, da maledicência, das condenações.
A terceira coisa é que em geral a má interpretação dos conceitos morais, o estabelecimento de regras muito estritas, em desacordo com a natureza do ser humano, gera ou a hipocrisia, a aparência de virtude, ou a própria negação dos outros valores que são válidos – como acontece por exemplo em Nietzsche. O terrível demiurgo de Strindberg, em Inferno, por exemplo, diz que se divertirá dotando o homem de vários impulsos muito forte e depois decretando que eles são proibidos, gerando no ser humano um conflito impossível de ser resolvido.
Este tipo de crítica, muito popular desde sempre mas particularmente disseminado nos dias de hoje, baseia-se em dois enganos sucessivos. O primeiro é o que mistura conceitos de época e noções culturais, supersticiosas, sociais e políticas no meio de uma doutrina religiosa, poluindo-a com a necessidade de atender a interesses externos ou imediatos. O segundo é o que pinça do meio destas noções estes disparates para através da demonstração de seu absurdo contestar a própria existência dos princípios morais.
A resolução destas questões não é, ao menos para mim, nenhum terrível debate teológico erudito, mas a simples aplicação daquele princípio de não se fazer ao outro aquilo que não nos agradaria que nos fizessem. Chego então na outra ponta daquilo que comecei a dizer.
Disse que quando há a preocupação em buscar a recompensa do Paraíso ou fugir dos castigos do Inferno a multiplicidade das religiões nos acalma ou inquieta. Nos tranquiliza quando achamos que estamos na religião certa e nos vingaremos de todas aquelas pessoas que fazem coisas que não gostamos vendo com inusitado prazer elas queimando no Inferno.
Nos inquieta quando esta certeza de estar na religião certa fica abalada – e acho que todas as pessoas que não estão tão desprovidas de verdadeira fé a ponto de serem absolutamente hipócritas passam pro estes momentos de dúvida – porque como estamos concentrados apenas no seguimento estrito às regras temos uma visão ainda meio “mágica” da fé. Em outras palavras achamos que podemos constranger Deus a nos aceitar com base no fato de que fazemos todas as coisas diretinho, queremos fazer uma barganha com Deus, como diz um poema de Saadi, não como se nossa salvação – seja qual for a imagem com a qual nossa fé nos apresente a ela – dependesse estritamente da misericórdia do Altíssimo e portanto é sempre um favor dele.
Quando somos capazes, pelo contrário, de nos libertarmos ao menos em parte deste tipo de escravidão pensando nas recompensas, pelo contrário, a multiplicidade das religiões e a essência comum de todas elas nos faz ver, com clareza e segurança, que o importante é fazer o trabalho de Deus no caminho que nos foi traçado, que há uma finalidade neste caminho, que ele é uma trilha pessoal e que devemos nos preocupar em fazer a nossa parte, ao invés de dar palpite na dos outros.
