Veredas
Há alguns anos li um comentário sobre o filme Abril Despedaçado no qual o resenhista comentava que era uma típica história nordestina, muito representativa daquela mentalidade do sertão. Sorri e mandei um email ao pobre dizendo que na verdade o filme era baseado em uma novela do escritor albanês Ismail Kadaré e ambientada naquele país. Reconhece, claro, que quase não se reconhece o livro no filme, é verdade, mas os elementos essenciais estão quase todos ali sim.
O resenhista até foi educado, corrigiu o erro e comentou meu texto, gentileza bem rara neste mundo de vaidades. De qualquer forma o episódio me ajudou a materializar um conceito, segundo o qual quanto mais nos aprofundamos no particular mais chegamos a uma compreensão do universal. Utilizando a imagem que René Guénon descreve para falar sobre as relações do Exotérico – as religiões estabelecidas – e do Esotérico – as diversas trilhas da senda rumo ao conhecimento da unidade – diria que um modelo similar poderia explicar várias outras coisas.
Nesta imagem há um círculo, cujo centro é a Unidade e a circunferência são as diversas religiões exotéricas, aparentes. Os infinitos raios que podem ser traçados entre o círculo e o centro são os múltiplos caminhos a serem seguidos. Na mesma analogia geométrica, quanto mais cada raio se aproxima do centro menor a distância entre eles, até que toda diversidade some quando se chega ao centro.
Tenho ás vezes muitas duvidas quanto à aplicabilidade deste teoria de Guénon hoje em dia, quando a maior parte das religiões foi abandonando a profundidade simbólica, deixando de ser ponte, para se tornar apenas um conjunto de regras morais. Ao mesmo tempo nem sempre vejo com bons olhos as misturas ecléticas, as religiões “faça-você-mesmo”, que ficam apenas na superfície da questão, desbaratam a disciplina e misturam sistemas simbólicos nem sempre compreendidos. Fico, assim, no limbo entre estes caminhos, incapaz de decidir-me entre a ortodoxia e a heresia – felizmente é difícil ser herege neste imenso tapete repleto de padrões multicores que é o Islam – tendendo ora a uma e ora para outra.
Mas acho que a idéia é bem válida para a literatura. Não que goste da crítica literária, tento fazer de tudo para não cair neste campo estéril, falando mais de minha experiência pessoal com os livros do que me preocupando com sistemas e rótulos. Mas certamente há algo de válido na idéia de que quanto mais um texto se aprofunda no particular, mais revela das grandes questões gerais.
Para além do exemplo que menciono de Kadaré, escritor que já gostei muito em particular do Palácio dos Sonhos – ambiente em uma repartição do Império otomano destinada a coletar, analisar e interpretar os sonhos dos súditos com finalidades políticas – mas que não tem me animado muito nos últimos livros, há muitos exemplos locais. Penso que o mais significativo é, sem dúvida, Guimarães Rosa, para o qual o “regionalismo” não é senão cenário para as tramas universais.
Sempre me pareceu, por exemplo, que o centro da trama de “Grande Sertão; Veredas” não é a luta de jagunços, nem o amor de Riobaldo e Diadorim, nem mesmo a idéia do professor que acaba se tornando líder de jagunços – e olha que de todas esta é a história que mais impulsionou meus devaneios.
A grande trama, tenho a impressão, é justamente a de um homem que precisa saber a todo custo se o Diabo realmente existe ou não, pois se existir terá feito um pacto com ele, que um dia será cobrado. Saber se as vitórias – e porque não, as derrotas – devem-se a nós mesmos ou a outras forças é um dilema que muitas vezes nos confronta.
Quando nos sentimos fortes muitas vezes esta sensação de força e poder está associado na nossa mente a um domínio do mal. Mesmo eu que nenhuma simpatia tenho por Nietzsche tendo a subscrever algumas teses dele de que os conceitos de moral são uma prisão. Claro que vou com ele só até uma parte do caminho e fico bem longe dos atalhos criados pro aqueles que acham que o entenderam para endossar barbaridades. A questão que escapa a ele, na minha opinião, e não escapa, por exemplo, a Buda ou a tantos santos e mestres sufis, é que nesta sensação de poder, quando não dirigida para a senda do auto-conhecimento, traz angústia e não liberdade.
O mestre ibn ‘Arabi conta que durante uma de suas viagens conheceu um buscador que morava em uma caverna, vestia andrajos e só pescava três peixes por dia, que dava aos pobres e se alimentava apenas das cabeças. O buscador disse que há tempos seu mestre não lhe escrevia e como ibn ‘Arabi se dirigia ao Cairo onde o sheikh daquele buscador morava pediu que o grande mestre transmitisse a ele o seu recado e trouxesse alguma mensagem.
Quando chegou ao Cairo ibn ‘Arabi estranhou em ver que o sheikh daquele buscador morava em um palácio luxuoso. Contando a história do buscador, ele pediu ao sheikh que lhe desse um recado para transmitir. O mestre disse então:
Diga a ele que ele está muito preocupado com as coisas deste mundo.
Ibn ‘Arabi estranhou a mensagem, mas sabedor que os métodos dos mestres verdadeiros ás vezes aparecem disparatados a quem tem um conhecimento imperfeito, parou na volta da viagem na caverna do derviche e lhe transmitiu o recado.
O Derviche chorou muito e disse:
É verdade, quantos dias não olho com cobiça o peixe que entrego aos pobres, não desejo que eu tivesse ao menos mais uma cabeça de peixe para comer, não desejo uma outra coberta mais quente que esta durante as noites frias, meu mestre tem razão.
A angústia é a oposta, mas a mesma de Riobardo Tatarana.
Diria que elas se resumem à incapacidade de ouvir a si mesmo, da desconfiança em relação a nossa voz interior, de nossos medos. Riobaldo é prisioneiro do medo de não ter sido ele mesmo que derrotou seu adversário, assim como o derviche esconde sua incapacidade de aprender através de uma aparência de santidade que no fundo é uma hipocrisia execrável, porque esconde o medo de privar-se de Dunia. Sua mente, como a minha tantas vezes, ainda deseja a recompensa de Dunia e não os tesouros de Na-koja-abad.
Há alguns dias disse em um poema que “O que me torna imperfeito/ É viver procurando a perfeição/ Ao invés de apenas/ Encontrá-la”. Tinha esta história do grande mestre em mente quando o escrevi, mas não a tinha no coração ainda. Tantas vezes sou como aquele derviche de fazer o bem não por estar na minha natureza, mas pelo desejo das recompensas.
Não é á toa que Riobaldo, na velhice, procure em várias fés aquela que vai lhe livrar deste peso de sua dúvida terrível, daquela que vai deixar seu coração em paz, que vai levar embora aquele medo de que o Diabo apareça a qualquer hora para cobrar o cumprimento do pacto. Ao menos é o que vejo quando desvelo todo o particular para tentar chegar á essência.
